Humanist Photography
“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”
Gertrude Stein
O retrato tem um indicativo muito claro. Ele é um indicativo de representação dos sujeitos ou das coisas fotografadas. Mas, seja pictórico ou fotográfico, faz mais do que registrar aquele momento das pinceladas do pintor ou do clic do fotógrafo. Ele contribui para a sua identidade social, do retratado e da sociedade, da época na qual foi registrado, representado.
Apesar da figuração do sujeito, ali, parado enquadrado em uma situação X, todo retrato é também um agente social, pois possibilita através do olhar múltiplas percepções simbólicas suscitadas no plano social no qual o retratado está inserido. Ele, retratado, oferece à objetiva não apenas seu corpo, seu olhar que olha de volta a câmara, ele também oferta suas roupas, seu gesto, sua maneira íntima de conceber o espaço material e social, como bem lembra Ananateresa Fabris.
Os retratos da mostra “Cores e Formas”, do fotógrafo ítalo-brasileiro Lamberto Scipioni, trazem essa perspectiva à tona. Fotógrafo radicado no Brasil há mais de 40 anos, ele conviveu e fotografou artistas como Pierre Verger, de quem foi amigo e que registrou em seu cotidiano, além de nomes fundamentais da arte brasileira como Farnese de Andrade, Sergio Camargo, Pietro Maria Bardi, Tomie Ohtake, Cildo Meireles, Bruno Giorgi, Burle Marx, Siron Franco, Maria Leontina e Iberê Camargo, entre muitos outros.
Mas seu olhar também captou e imortalizou personalidades como Audrey Hepburn, Yoko Ono, Babalorixá Pai Balbino, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, o Dalai Lama (numa ocasião na qual morou na Índia com monges tibetanos), e até uma Claudia Cardinale jovem, vestida de baiana. Um olhar atemporal e com uma cartografia afetiva muito peculiar.
Lamberto nos apresenta, exibe esses personagens incontornáveis da arte e da cultura mundial imprimindo o que o francês Philippe Dubois afirma ao colocar a fotografia como “marca do real”. E essa marca atualmente se desdobra além da película prateada da fotografia, vai além, pelos dispositivos móveis e pelas telas de computadores.
O “real” é o Narciso que sobrevive desde que a fotografia foi inventada. Ele não morreu, não desapareceu ao cair no lago que lhe refletia a fronte. A fotografia e sua ilusão especular, um espelho sobre o qual nós com nossos pequenos espelhos compactos e particulares nos debruçamos sempre, a tela do celular. No mundo, a sociedade se lança para contemplar seu reflexo como narcisos olhando pinturas ou fotografias.
Então, o retrato fotográfico capta algo de real sem adornos, sem um cenário criado para a cena, para o registro em si.
Arlindo Machado, um dos maiores pensadores sobre a fotografia e a imagem que o Brasil já teve, e que tive a chance de conhecer e ter longas conversas no decorrer de anos, aponta com discordância de uma espécie de “misticismo” em relação à crença na objetividade da fotografia e sua fidelidade ao real. E ele deixa isso bem claro em 2001, há mais de 20 anos:
“o que a película fotográfica registra não é exatamente uma ação do objeto sobre ela (não há contato físico ou ‘dinâmico’ do objeto com a película), mas o modo particular de absorção e reflexão da luz por um corpo disposto num espaço iluminado, tal como uma emulsão sensível o interpreta com base apenas naquela parte dos raios de luz refletidos pelo objeto que puderam ser coletados pela lente e filtrados pelos dispositivos internos da câmera. Trata-se de um processo extraordinariamente complexo, que se encontra distante alguns anos-luz da simplicidade franciscana dos índices visuais clássicos, como a pegada deixada no solo por um animal, ou a impressão digital”.
Annateresa Fabris nos revela, aqui em duplo sentido, que a fotografia é parte da construção social dos sujeitos. Assim como a pintura o foi antes, e ainda é, assim como a fotografia. Ela lembra do francês Félix Nadar, que no século 19 era “atento observador do ser humano, imbuído das ideias fisionômicas que circulavam no seu tempo, Nadar concentra no rosto a expressão do caráter do indivíduo”.
O retrato foi o gênero mais comercializado de fotografia no Brasil no início do século XX. Ele circulava como cartões, álbuns ou avulsos, e expandiram as fronteiras do ver e ser visto. E eles anunciavam nascimentos, casamentos, as realizações profissionais, o poder e a pobreza, o cotidiano da época.
Não podemos esquecer que a vida social no início do século XX estava atrelada à condição material. Um indivíduo é o que ele possui. E a fotografia pode eternizar sua riqueza, o seu poder. Há mais de um século o “carão”, a pose, era tão representativa que antes de adentrar o ateliê do fotógrafo do século 19, a pessoa era chamada à “sala de pose”, onde permanecia para poder visualizar vários outros retratos, escolhendo as roupas, acessórios e escolhendo a pose mais adequada para o retrato.
Com sua herança do retrato pictórico, a fotografia – tanto quanto a pintura – narra uma história visual.
Lamberto nos lembra que nunca podemos esquecer que o fotografado sempre nos devolve seu olhar, o mesmo que mira a câmara e além dela, o fotógrafo. É uma dupla sedução que insere ambos no mesmo lugar e instante causando, de certa maneira uma sincronia espaço-temporal que nos arremessa simultaneamente para dentro e para fora da imagem do retratado.
No retrato acontece uma operação singular criando um diálogo entre fotógrafo e fotografado. Mesmo que fugaz, há uma intimidade. Mais, mas que tudo, um retrato é sobre capturar a essência da identidade do retratado. Do outro que está ali, do outro lado da câmera e do fotógrafo.
O retrato é uma captura, um sequestro da fisionomia, do caráter, da alma do outro. Devido a sua materialidade, a fotografia abrange distintas dimensões: espacial e temporal. Como representação de um passado que, afinal, como diz William Faulkner, nunca está morto, nem passado é.
Jurandy Valença, março de 2022.