Sobre

Lamberto Scipioni

Humanist Photography

Lamberto Scipioni: a beleza do rigor

Tem alguns fotógrafos, poucos na verdade, cuja vida poderia ser registrada para além das imagens, poderia se fixar em palavras em um livro. O italiano Lamberto Scipioni, radicado no Brasil há mais de 40 anos, seria um deles. Nascido em Roma, em 1955, estudou no Liceo Artistico e cursou direção de fotografia no Centro Sperimentali di Cinematografia, a mais antiga escola italiana de ensino, pesquisa e experimentação no campo da cinematografia, e por onde passaram nomes como Michelangelo Antonioni, Dino De Laurentiis, Marco Bellocchio, Liliana Cavani, Monica Vitti, Claudia Cardinale e aquele que é, quiçá, o melhor fotógrafo de cinema do mundo, Vittorio Storaro.

Ainda em Roma, Lamberto trabalhou com Ângelo Frontoni, o fotógrafo das divas do cinema como Sophia Loren, Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Anna Magnani, Silvana Mangano, Ursula Andress, Jane Fonda, Natalie Wood, entre tantas outras. Essa convivência com personalidades na Itália se desdobrou no Brasil com outras das artes visuais.

Aqui, ele conviveu e fotografou artistas como Pierre Verger, de quem foi amigo e que registrou em seu cotidiano, além de nomes fundamentais da arte brasileira como Farnese de Andrade, Sergio Camargo, Volpi e Tomie Ohtake, entre diversos outros. Lamberto tem uma marca quando retrata o humano, pois antes há um envolvimento com seu retratado, há uma intimidade latente que atravessa a superfície bidimensional da fotografia.

Ele registrou desde Pietro Maria Bardi, Audrey Hepburn, Yoko Ono, passando pelo Babalorixá Pai Balbino, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce e o Dalai Lama (numa ocasião na qual morou na Índia com monges tibetanos), até uma Claudia Cardinale jovem, vestida de baiana. Um olhar atemporal e com uma cartografia afetiva muito peculiar.

Lamberto é um fotógrafo do mundo, um flâneur atento que registra, parafraseando Montaigne, paisagens e passagens. Desde sua primeira individual em Roma, em 1975, ele vem construindo uma trajetória que em 2022 soma 47 anos dedicado à arte de fotografar.

Tendo realizado exposições individuais não só no Brasil e na Itália, mas também em países como a Espanha, Filipinas, França e Portugal, ele também participou da Bienal de Veneza 2011, quando foi comemorado o 150º aniversário da Unificação da Itália. Em São Paulo suas fotografias foram vistas pela 1ª vez em 1981, na icônica Galeria Fotoptica, criada em 1979 por Thomaz Farkas para exibir exclusivamente fotografias.

No país desde 1978, sua obra faz parte da coleção de fotografia do MASP – Museu de Arte de São Paulo; em 1980 participou da 1ª Trienal de Fotografia, no Museu de Arte Moderna de São Paulo; e em 1985 esteve na 1ª Quadrienal de Fotografia, também no MAM/SP. Teve trabalhos exibidos na Pinacoteca do Estado de São Paulo em três ocasiões, 1990, 1994 e 1998; duas vezes na Caixa Cultural, em São Paulo e em Brasília, respectivamente em 2008 e 2009.

Além de também exibir suas imagens em instituições como o Centro Cultural São Paulo e o Sesc Vila Mariana, teve inúmeras colaborações para revistas brasileiras e internacionais, e recebeu, entre outros, o prêmio do Concurso Europa de Jornalismo, promovido pela Comissão Europeia de Turismo (CET) e oferecido àqueles que desenvolveram trabalhos sobre a Europa.

Entre a estética e a técnica

A fotografia, seja ela documental ou não, deve conter, ao meu ver, algo que vá além do que é oferecido pelo aparelho fotográfico. Ela também pode ter potências pedagógicas. Ela pode educar o olhar, os sentidos, o pensamento. Uma educação estética que tem como fio condutor a dialética da imagem.

A sua produção fotográfica me lembra Walter Benjamin e Vilém Flusser, dois filósofos que pensaram a imagem para além do que ela foi criada, o ato de registrar. De certa forma, Lamberto também pensa, explora em seu processo artístico, a vida estética e técnica da imagem, a sua existência além da “caixa preta” de Flusser, com a aura das obras de arte da qual falava Benjamin.

E ambos, que faleceram há décadas, não puderam nem imaginar, presenciar o que acontece hoje com a reprodução técnica na era digital.

Afinal, a fotografia é a ferramenta pela qual o artista, o fotógrafo, consegue captar o retrato mais fiel e verdadeiro do registro da cultura, dos costumes, da sociedade. Nesse sentido, Lamberto Scipioni torna-se, também, um antropólogo da imagem. Ele mergulha no seu objeto de “estudo”, convivendo com ele, vivenciando-lhe.

Assim como tivemos no passado os pintores viajantes, Lamberto encarna o fotógrafo viajante, com seu olhar que mistura o Renascimento e o Moderno sempre com humanismo. Um olhar que abraça temas tão diversos quanto Mozart e Verdi, os artistas do muralismo brasileiro, pintores negros dos oitocentos, a natureza na arte brasileira, as esculturas do tcheco Slavik e o carnaval no Rio de Janeiro e em Veneza.

De certa maneira, antropofagicamente, ele mergulhou fundo no agreste da Bahia, na caatinga do Rio Grande do Norte, nos hábitos e costumes e tradições das matrizes africanas, nos quilombos. Em sua obra, ele engendra uma investigação sobre material e o imaterial; sobre o outro que registra com intimidade, ou como aquele que elege um material, o concreto, para criar imagens belíssimas, mas que também enquadra a religião e seus rituais e subjetividades.

O rigor da beleza

O rigor e o poder de convencimento do fotógrafo é conhecido. Diante da reprodutibilidade técnica que a fotografia dispõe, ele conseguiu, após argumentos estéticos e técnicos, convencer o Louvre a montar um estúdio na reserva técnica do museu em forma de pirâmide para que ele conseguisse reproduzir com a máxima fidelidade possível a luz singular que atravessava as fendas das pirâmides no pôr-do-sol há milhares de anos.

As peças, da coleção do Departamento de Antiguidades Egípcias do museu, foram expostas na exposição “A Arte Egípcia no Tempo dos Faraós”, em 2018, na FAAP, São Paulo. Em outro de seus projetos mais ambiciosos, resolveu fotografar sobre a vida de Mozart na República Tcheca, onde teve acessos a locais nunca antes registrados por um fotógrafo.

Sob suas lentes podemos não só ver, mas também sentir como se estivéssemos ao seu lado as belezas e singularidades de lugares por onde esteve durante temporadas para realizar seus ensaios fotográficos como a Capadócia, Capri, Marrocos, Patagônia, Praga, Provence, Sevilha e Veneza.

É quase como se ele encarnasse a figura do cigano, do nômade que elegeu duas cidades como porto seguros, Roma e São Paulo. Não há como esquecer seus registros dos terreiros da Bahia, a luz das pirâmides do Egito, o alumbramento dionisíaco do Rio de Janeiro, o agreste doce no Nordeste, a arquitetura imponente e bela do concreto armado no Brasil, e Paris, a cidade luz.

De alguma maneira Lamberto se apropriou de cada uma dessas cidades, desses temas e materiais ecoando aquela afirmação da ensaísta norte-americana Susan Sontag, que diz que “fotografar é apropriar-se da coisa fotografada”.

O Punctum

Roland Barthes, em seu livro “A Câmara Clara”, fala do Punctum na fotografia. Que pertence à ordem da subjetividade e que pode ser entendido como algo que penetra, que transpassa e que, de alguma maneira, fere.

“O Punctum de uma foto é esse caso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)”. De certa maneira Lamberto nos proporciona – como observadores, talvez até voyeurs – esse momento que somos “feridos”, pungidos pela imagem.

Em suas andanças pelo Brasil e o mundo, Lamberto não nos fala apenas da situação geográfica em si, do lugar enquanto vilarejo ou cidade; ele também nos sinaliza que a palavra “lugar”, que delimita um espaço, que marca uma posição, também é o lugar que escolheu para se expressar, a fotografia.

E nos traz em seu trabalho o reflexo de uma frase do filósofo francês Henri Bergson: “o olho só vê o que a mente está preparada para conhecer”.

Jurandy Valença, fevereiro de 2022

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