Sobre

Lamberto Scipioni

Humanist Photography

Lamberto Scipioni – Fotografias com Alma

Por Luis Pellegrini

Por compartilharmos a mesma paixão por viagens, Lamberto Scipioni e eu percorremos, ao longo de décadas, alguns dos mais importantes itinerários de quatro continentes, Europa, Ásia, África do Norte e as três Américas. Tivemos sorte: nossos contatos jornalísticos e editoriais no Brasil, na Itália e na França possibilitaram essa vida de nômades profissionais, ele na função de fotógrafo e eu na de repórter/redator.

As aventuras e experiências vividas nessas viagens seriam suficientes para encher as linhas das páginas de muitos livros. Somadas às entrelinhas, às vezes até mais importantes e abundantes, significaria material suficiente para justificar muitas existências transcorridas neste planeta tão repleto de horror e de maravilha. Tivemos sorte, e continuamos a tê-la, e nunca deixo de agradecer aos deuses, ou aquilo que chamamos por seus nomes, todas as oportunidades que nos foram proporcionadas de ver e experimentar o mundo.

Há mistérios nas pessoas que, no entanto, persistem, mesmo após muito tempo de amizade e convivência. Levei décadas, por exemplo, para descobrir a razão da ojeriza visceral que Lamberto sente por expressões de uso corrente quando falamos de fotografia, tais como “tirar uma foto”, “captar uma imagem”, ou “registrar uma cena”. Para mim parecia natural que, com sua câmera, um fotógrafo consiga capturar na película ou, hoje, muito mais na imagem digital, alguma expressão da realidade que ele testemunha. E também achava natural que, depois, esse fotógrafo queira transmitir seu trabalho para o espectador.

Mas, para Lamberto, as coisas não são bem assim. Entendi qual era a sua visão do ato de fotografar há cerca de dez anos, na ocasião em que eu e ele viajamos para a República Checa para produzir uma reportagem sobre a presença do grande compositor Wolfgang Amadeus Mozart na antiga Boêmia, região da Europa Central que depois virou Checoslováquia, antes de adquirir o nome pelo qual é hoje conhecida. Foi por esse serviço fotográfico que Lamberto ganhou, pela terceira vez, o Prêmio Europeu de Fotografia, concedido pelo Comitê Europeu de Viagem e Turismo.

Mozart simplesmente adorava a Boêmia, foi lá inúmeras vezes, e estreou várias obras suas, inclusive a ópera Don Giovanni, nos grandes teatros da capital, Praga. Até hoje, os checos afirmam, com indisfarçado orgulho, que Mozart, na alma, “era muito mais checo do que austríaco”. À parte alfinetadas do gênero endereçadas aos vizinhos da Áustria, terra natal do compositor, a verdade é que, desde muito cedo, ele não perdia nenhuma chance de visitar as terras boêmias.

Estávamos na cidade histórica checa de Olomouc, onde Mozart, no início da adolescência, passou vários meses hospedado com sua família no Mosteiro de São Venceslau, para fugir de uma epidemia de peste que grassava em Viena. O mosteiro situa-se no alto de uma colina nos arredores da cidade, e conta-se que o jovem Mozart percorria diariamente a pé o caminho que desce a colina e atravessa o vale até chegar, lá embaixo, ao hospital militar, que existe até hoje.

Às margens da estrada, enormes pinheiros, carvalhos, abetos e plátanos multisseculares parecem espreitar os passantes. A certo ponto, Lamberto parou, percorreu com o olhar toda aquela sucessão de árvores antigas. O outono chegara, e elas estavam vestidas com as cores da meia estação, aqueles incríveis amarelos, ocres, vermelhos e alaranjados que ostentam durante duas ou três semanas antes de caírem ao solo.

Lamberto disse: “Quando passava por aqui, Mozart ouvia a música produzida por essas árvores. Guardava essas impressões na memória e depois, quando chegava em casa, transcrevia tudo nas partituras”. “Então você acha que essas árvores são na verdade músicos de uma grande orquestra?”, retruquei. E ele: “Sim, claro. Uma orquestra que não produz sons, e sim formas e cores”.

Naquele momento, a ficha caiu para mim: Lamberto realmente não tira fotos, não capta ou registra imagens. Do mesmo modo como imagina que Mozart “ouvisse” a música entoada pelas árvores, esse fotógrafo mergulha na realidade profunda do objeto ou do ser fotografado e, quando sente que percebeu o significado anímico desse ser ou objeto, ele usa a câmera fotográfica como um pintor usa o pincel, ou o escultor usa o cinzel, para exprimir a experiência que viveu naquele contato com a “alma” daquelas coisas.

Fica particularmente fácil entender isso quando contemplamos as fotografias que compõem esta série cujo tema são artistas plásticos brasileiros em seus ateliês. As imagens mostram como o criador de arte tende a projetar a si mesmo no seu ambiente de trabalho. As formas e cores, os ritmos, as melodias e as harmonias que aparecem em seus desenhos, pinturas ou esculturas são simplesmente projeções visuais das forças que habitam a alma daquele artista. Isso não se limita às obras acabadas mas extravasa também no seu próprio ambiente de trabalho, no seu ateliê, estúdio ou oficina.

Exatamente do mesmo modo, as fotografias de Lamberto Scipioni são como um livro aberto que revela, para quem quiser ver, as particularidades desse fotógrafo, seu senso estético, suas pulsões afetivas e emocionais, suas utopias, seus sonhos e seus anseios. São fotos reveladoras da alma, não apenas a do pintor ou escultor em foco, mas também a do fotógrafo que foi capaz de entrar em ressonância com ela.

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